Revista
Latinoamericana de
Recreación

ISSN: 2027-7385
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SOBRE ÓCIO E LAZER: SIGNIFICADOS ATRIBUIDOS POR UNIVERSITÁRIOS DA CIDADE DE FORTALEZA- BRASIL
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Resumen. As mudanças experimentadas nos últimos anos na sociedade contemporânea relativas ao rápido
desenvolvimento tecnológico e à expansão de hábitos de consumo colocam o tempo livre e o ócio como
fenômenos importantes a serem estudados e compreendidos na sociedade atual. Desta forma, o presente
estudo tem por objetivo compreender a experiência de ócio de estudantes universitários da cidade de
Fortaleza-CE, procurando elucidar alguns questionamentos: Como os sujeitos compreendem o tempo de ócio
que dispõem atualmente? Qual a importância do ócio na vida das pessoas? Qual o grau de satisfação que os
indivíduos atribuem ao seu ócio? Para tal, nos utilizamos da análise de dados quantitativos colhidos com
estudantes da Universidade de Fortaleza para um estudo da experiência de ócio em âmbito Iberoamericano.
As análises qualitativas foram baseadas em estudos desenvolvidos na América Latina e na Espanha. Os
resultados nos mostram que a compreensão da experiência de ócio dos estudantes universitários está
relacionada às práticas de lazer uma vez que focalizam a atividade e o tempo social no qual ela se produz,
deixando de lado o caráter subjetivo de tais vivências.

Palabras clave: Ócio, Atividade de lazer, Tempo livre.


EN OCIO Y RECREACIÓN: SIGNIFICADOS ATRIBUIDO POR UNIVERSIDAD CIUDAD
FORTALEZA-BRASIL

Resumo. Los cambios experimentados en los últimos años en la sociedad contemporánea para el rápido
desarrollo de la tecnología y la expansión de los hábitos de consumo colocan al tiempo libre y el ocio como
fenómenos importantes que deben estudiarse y entenderse en la sociedad actual. Este estudio tiene como
objetivo comprender la experiencia de ocio de los estudiantes universitarios en la ciudad de Fortaleza,
buscando dilucidar algunas preguntas: ¿Cómo entender el tiempo libre disponible para ellos hoy en día? ¿Cuál
es la importancia del ocio en la vida de las personas? ¿Qué grado de satisfacción aporta a los individuos su
ociosidad? Para ello, se utiliza un análisis de los datos cuantitativos obtenidos con los estudiantes de la
Universidad de Fortaleza para el estudio de la experiencia de ocio en el contexto iberoamericano. Los análisis
cualitativos se basaron en estudios realizados en América Latina y España. Los resultados muestran que la
comprensión de la experiencia de ocio de los estudiantes universitarios está relacionada con las prácticas de
ocio una vez que se centran en la actividad social y el momento en que se lleva a cabo, dejando a un lado el
carácter subjetivo de tales experiencias.
Palavras-chave: ocio, actividad de recreación, tiempo libre



DATOS BIOGRÁFICOS

José Clerton de Oliveira Martins. Doutor em Psicologia e Pós-Doutor em Ócio e Desenvolvimento Humano.
Professor Titular do Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UNIFOR
Fabiana Neiva Veloso Brasileiro. Mestre em Psicologia. Doutoranda em Psicologia pelo Programa de PósGraduação em Psicologia da UNIFOR. Professora da Universidade de Fortaleza - UNIFOR
Francisco Antonio Francileudo. Doutor em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
UNIFOR. Professor da Faculdade Católica de Fortaleza - FCF.

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INTRODUÇÃO

Na sociedade contemporânea, o aumento do tempo livre, a redução da jornada laboral, o incremento de novas tecnologias, o avanço na aposentadoria aliado ao aumento da expectativa de vida, a necessidade de maior qualificação para o trabalho e o crescente desemprego, levaram os jovens a adiar a entrada no mundo do trabalho e a mudarem suas expectativas em relação a este, quando comparadas a gerações anteriores. De acordo com Cuenca (2003), as gerações atuais se vêem obrigadas a assumir trabalhos cada vez mais instáveis e mal remunerados, passando a defender o máximo de tempo livre possível e o ócio como via para proporcionar uma saída diante da difícil situação atual de trabalho.

A existência do tempo livre possibilitou o planejamento e a incidência de questões alheiasà produtividade e orientadas ao descanso e à satisfação como, o maior aproveitamento das férias, o incremento do turismo, do lazer, da importância atribuída aos programas de televisão, de espaços para desenvolvimento de atividades, o acesso massivo aos meios de locomoção e às tecnologias de comunicação. Todas estas transformações, observadas na contemporaneidade, têm favorecido o desenvolvimento de estilos de vida em que o exercício do ócio tem grande importância e incidência no âmbito temporal, pessoal, econômico, político e social dos indivíduos.

O crescimento do tempo sem ocupação laboral nos leva a pensar e a refletir sobre as experiências que se vive neste tempo livre, que foi conquistado com os movimentos sociais e sindicais iniciados no século XIX, e se tornou realidade no final do século XX associado ao desenvolvimento das tecnologias advindas da revolução industrial. Para Cuenca (2003), as vivências realizadas no tempo livre podem levar tanto a focos de alienação e de destruição como a desenvolvimento e a realização pessoal. Aquino e Martins (2007) asseveram que a sociedade contemporânea não contempla a orientação para ser/existir num tempo de “nada fazer”.

Na sociedade contemporânea, a sociedade do hiper, de acordo com Lipovetsky (2004), hipermoderna, hiperconsumista, o tempo de ócio tem se convertido em um tempo de consumo, como forma de preencher um vazio existencial e dar sentido a vida. O ócio moderno que cresceu amparado na necessidade de descanso tem mudado seu objetivo para a ideia de um viver intenso e pessoal e, seguindo esta lógica, as indústrias do ócio vendem sensações, emoções, afetos e projeções pessoais que nos estão conduzindo a uma perda de referência e a uma confusão entre o real e o imaginário, o autêntico e o teatral, a cópia e o virtual (Cuenca e Gutiérrez, 2009). Desta forma, faz-se necessário um processo de orientação para o uso adequado do tempo de ócio; fator de vital importância para a constituição de um indivíduo equilibrado.

Na sociedade contemporânea, hipermoderna, tudo é superlativizado e os paradoxos se exibem às claras (Lipovetsky, 2004). Os indivíduos deste tempo vivem a lógica dual da sociedade e refletem os paradoxos nas suas condutas: mostram-se ao mesmo tempo mais informados e mais desestruturados, mais adultos e mais instáveis, mais críticos e mais superficiais, mais preocupados com condutas responsáveis e, ao mesmo tempo, demonstram também maior irresponsabilidade nas suas ações, reivindicam um maior tempo livre e se voltam cada vez mais ao trabalho.

Como bem colocam Aquino e Martins (2007), “no caos entre necessidades econômicas e existenciais o homem se vê dividido entre as obrigações impostas por suas atividades laborais e o desejo de libertar-se dessas tarefas para poder usufruir um tempo para si”(p. 481). Os efeitos causados pela nova ordem do tempo permeiam não só o universo do trabalho, mas também, as relações do indivíduo com o seu cotidiano, consigo mesmo e com os outros. Segundo Cuenca (2003), a sociedade do ócio que temos hoje não é aquela que se projetava nas perspectivas dos anos setenta. A maior disponibilidade de tempo livre não trouxe um maior desenvolvimento de práticas culturais e solidárias como supunham alguns autores mais otimistas. Na sociedade contemporânea, o rápido desenvolvimento tecnológico e a expansão do ócio de consumo levam a crer que o ócio não tem ocupado a posição que se esperava no contexto atual.

Salis (2011) afirma que a sociedade contemporânea, mesmo com toda a idéia de progresso conseguida através das conquistas materiais, do desenvolvimento científico e tecnológico que deveria estar a serviço do homem, não conseguiu possibilitar aos indivíduos estabilidade, paz de espírito, segurança, liberdade e respeito ao direito de ser na sua natureza e essência. Diante deste contexto alguns questionamentos são levantados: Como os sujeitos compreendem o tempo de ócio que dispõem atualmente? Qual a importância do ócio na vida das pessoas? Qual o grau de satisfação que os indivíduos têm atualmente com o seu ócio? Como a experiência de ócio é compreendida na atualidade?

A partir de inquietações surgidas como membros do Laboratório OTIUM, de estudos sobre ócio, trabalho e tempo livre, da Universidade de Fortaleza – cresceu o interesse por investigar qual a compreensão da experiência de ócio de estudantes universitários na cidade de Fortaleza, objeto deste estudo. Tornou-se plausível, portanto, para desenvolver o objetivo proposto, discutir as concepções teóricas e os significados atribuídos ao ócio, ao lazer e a noção de tempo livre bem como as especificações entre estes termos no contexto da sociedade contemporânea atual.

Relação entre ócio, tempo livre e lazer

É comum serem utilizados com o mesmo significado os termos ócio, tempo livre e lazer, no entanto, são termos que precisam ser postos em discussão para que tenhamos elementos para uma análise crítica da compreensão do ócio no contexto em que vivemos.

A tentativa de conceituar o ócio, não é uma tarefa fácil, pois o ócio está associado a vários significados e noções vinculadas ao momento histórico e à perspectiva de quem pretende estudá-lo. Assim como o ócio, Aquino e Martins (2008), também consideram polêmica a origem e o sentido do termo lazer. Grande parte dos equívocos e polêmicas em torno do significado destes termos está relacionada à compreensão no Brasil que tem relação com a própria história da industrialização e modernização brasileira e à tradução de obras originais espanholas e italianas que trazem a utilização do termo ócio com o mesmo sentido do termo lazer.

No Brasil, o termo lazer vem sendo utilizado de forma crescente podendo ser empregado em sua concepção real ou estar associado a palavras como entretenimento, turismo, divertimento e recreação. Autores brasileiros como Aquino e Martins (2008) e Marcelino (2004,2005) consideram que a palavra lazer, resguarda seu sentido relacionado à sociologia empírica do lazer de Dumazedier (1972, 1979) que considera o lazer com função de descanso, à medida que libera o sujeito do cansaço do trabalho, de diversão, quando rompe a monotonia da rotina diária e com a função de desenvolvimento, ao promover uma maior participação social das pessoas.

Neste sentido, Requixa (1977) enfatiza a importância do tempo livre como indispensável para o desenvolvimento do lazer ao compreender o lazer como uma ocupação não obrigatória, de livre escolha do indivíduo que a vivencia e cujos valores propiciam condições de recuperação e de desenvolvimento pessoal e social. Para além desta compreensão, Marcelino (2004) entende o lazer como um tempo privilegiado para a vivência de valores que contribuam para mudanças de ordem moral e cultural, necessárias para solapar a estrutura social vigente.

Neste sentido e numa visão mais crítica Mascarenhas (2005) utiliza o termo mercolazer, para se referir à subordinação do lazer ao capital observada na sociedade contemporânea na qual a sua funcionalidade para o sistema é cada vez mais econômica do que social. Para este autor, os antigos valores atribuídos ao lazer no funcionalismo dos “3D’s” de Dumazedier (1979)– Diversão, Desenvolvimento e Descanso, vêm sendo substituídos pela promessa de utilidade expressa pelos “4 S”- (sport, sun, sex and sea), estes apontados como novos balizadores do ideal de lazer na contemporaneidade.

Mascarenhas (2005) considera que, antes da década de 1990, as experiências de lazer estavam ligadas ao aspecto sensível e educativo de uma atividade ou programa de lazer e que, na atualidade, o lazer tomado como mercadoria, leva a perda do sensível e ao esvaziamento educativo que pode possibilitar. As pessoas se transformam em elementos passivos ante uma prática social cujo objetivo maior é o de liberar adrenalina e a intensificação do prazer, do êxtase, torna-se o atributo abstrato e quantitativo que hoje, ao lado do preço, é o que mais conta na hora da opção e consumo de um determinado serviço.

Dentro deste contexto, partiremos da compreensão expressa por Aquino e Martins (2008) do lazer enquanto atividade que tem sua base ancorada na existência de um tempo livre, fomentado e reconhecido legalmente e que poderia ser exercido autonomamente pelos trabalhadores, tendo por base sua condição sócio-econômica e seus valores sociais.

O fenômeno do tempo livre na sociedade contemporânea veio a confundir também tempo livre e ócio. Para Cuenca e Gutierrez (2009) “ainda que a confusão entre ócio e tempo livre seja um fenômeno específico da segunda metade do século passado, não se pode ocultar que esta tenha facilitado um consenso sobre a consideração do tempo livre como um direito social de todo ser humano, base essencial para se perguntar depois o que é ócio”(p. 14).

Puig e Trilla (2004), esclarecem que o ócio supõe a liberação das obrigações do trabalho e a disponibilidade pessoal do tempo, no entanto, ócio não é sinônimo de tempo livre. O tempo livre é unicamente uma condição necessária, mas não suficiente, para o ócio.

No entanto, assim, como não se pode reduzir o conceito de ócio ao de tempo livre também não se pode associá-lo à atividade com fins utilitários, reduzindo-o a uma ação. A atividade, apesar de sempre estar presente nas situações de ócio, não pode ser considerada um traço definitivo deste (Cuenca, 2004). As ações de ócio são resultado de uma livre escolha frenteà obrigatoriedade do trabalho, levada a cabo por razões intrínsecas, que convertem a atividade realizada em um fim, ao invés de ser um meio para qualquer outra finalidade. Segundo Aquino e Martins (2007), a ação é uma referência que, com a percepção de quem a realiza, pode, ou não, ser uma experiência de ócio.

Ainda para Aquino e Martins (2008), no Brasil, as palavras ócio e lazer, no sentido corriqueiro, aparecem como sinônimos embora tenham sentidos diferentes, e resguardam relação com o tempo livre. Ócio e lazer necessitam de um tempo liberado ou livre e resguardam relação com liberdade. Na dinâmica social brasileira, no entanto, um se apresenta carregado de valores do capital, relacionando-se diretamente com o tempo de reposição de energia para o trabalho. O outro envolve um sentido de utopia por orientar a uma liberdade supostamente, longe de ser alcançada, haja vista, a própria dinâmica socioeconômica preponderante. Se há para alguns uma identidade absoluta entre a noção de lazer e ócio, talvez se instaure no elemento da autonomia o diferencial entre essas duas categorias, pelo menos na mediação do tempo como elemento articulador. Não há no ócio qualquer conotação de atividade que persiga outro fim (p. 210).

Conforme Cuenca (2004), o ócio deve ser entendido como um modo de ser e de perceber determinada atividade, como um âmbito da experiência humana, determinada pela atitude com que se desenvolve uma ação. A vivência de ócio ganha significação, importância e qualidade na medida em que se separa do mero “passatempo” e se instala rompendo as barreiras do tempo objetivo. Essa vivência, enquanto experiência humana, deve se incorporar em um tempo posterior ao da mera realização da atividade; um tempo para recordar o sentimento que permite reviver uma experiência passada satisfatória e que pode ser ainda mais importante quando se converte em motivação inicial de um novo processo existencial.

Na perspectiva de Puig e Trilla (2004), cria-se uma situação de ócio quando o homem, durante o seu tempo livre, decide e gere livremente suas atividades; obtém prazer e satisfaz necessidades pessoais como descansar, se divertir ou se desenvolver. Para alem dessa proposição no entender de Cuenca (2003, 2004, 2008), o ócio é uma área de experiência; um recurso de desenvolvimento geral; uma fonte de saúde e de prevenção de doenças; um direito humano. Viver o ócio é estar consciente da não obrigatoriedade e da finalidade não utilitária de uma ação externa ou interna, tendo esta sido eleita em função da satisfação íntima que proporciona.

Salis (2002, 2004) e Puig e Trilla (2004) consideram a Grécia o berço e ao mesmo tempo o ponto culminante de profunda concepção de ócio. Para os gregos, o ócio, constitui um tema importante na configuração de seu ideal de humano. Para Aristóteles (1998), o ócio é o princípio de todas as coisas, se volta para o alcance da felicidade. Sendo assim, as atividades de ócio por excelência são as aprendizagens e a formação que se dão em função de si mesma e não em função da necessidade de trabalho.

Com o surgimento das civilizações mercantilistas e o advento da revolução industrial o ócio criador, progressivamente, foi dando lugar àquilo que ficou conhecido no mundo como o “Negum Otium”, negação do ócio ou ausência dele. Agora, não se trata mais de celebrar a vida, a natureza e a criação; agora nasce o homem que celebra os negócios e dedica toda a sua vida para eles. O objetivo seria supostamente acumular riquezas, para só então viver no ócio (Salis, 2008). Assim, o termo ócio passou a ser associado à ociosidade, à ideia de vadiagem, vagabundagem e preguiça.

No contexto contemporâneo, o ócio é tomado em sentido diverso, cabe assinalar que, para fins deste estudo, considera-se o ócio como uma experiência gratuita, necessária e enriquecedora da natureza humana, embora se saiba que, nem sempre se vive o ócio desta forma, de forma autotélica, valiosa e profunda.

Aporte metodológico.

Para este estudo de abordagem qualitativa, utilizamos pesquisa bibliográfica envolvendo os temas centrais discutidos e trabalhamos com a análise dos dados que são resultados de uma pesquisa realizada pela Associação Iberoamericana de Estudos do Ócio com alunos de um universo de oito universidades de diferentes países Iberoamericanos, Brasil, Chile, Equador, Espanha, México e Uruguai e que teve por objetivos conhecer a experiência de ócio em diferentes países. A pesquisa foi realizada no período de maio a novembro de 2009. De um universo de 476 sujeitos pertencentes a oito universidades de seis países diferentes optamos por trabalhar com uma amostra de 46 sujeitos alunos da Universidade de Fortaleza, uma das universidades brasileiras contempladas na pesquisa. Os dados foram colhidos através de um questionário estruturado, elaborado por especialistas do Instituto de Estudos do Ócio da Universidade de Deusto e preenchidos pelos estudantes que podiam recorrer ao responsável pela aplicação dos questionários caso tivessem alguma dúvida.

Os dados dos questionários foram analisados estatisticamente a partir do software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) e apresentaram um índice de confiabilidade de 95%, com base no índice de indeterminação (p=q=50%).

A e experiência de ócio a partir de jovens universitários Brasileiros.

Apresentamos os resultados da pesquisa realizada entre maio e novembro de 2009 na Universidade de Fortaleza com 46 estudantes universitários. Sendo do total desta amostra 65,2% mulheres e apenas 34,8% homens. Em relação ao estado civil, 71,8% dos entrevistados, no momento da pesquisa eram solteiros e 54,4 % dos entrevistados ainda mora com seus pais. Apresentamos os resultados do Estudo referentes à percepção do tempo livre disponível manifestada pelos entrevistados. Analisaremos os dados relativos aos homens e às mulheres.

Em relação à consideração sobre o tempo livre disponível, podemos observar que a maior parte dos entrevistados considera que o tempo livre que dispõem é pouco (43,5%). Considerando os dados em relação ao gênero, observamos que a maior parte dos homens (53,3%) demonstra que o tempo livre que dispõem é pouco. A percepção das mulheresé diferente, igual número (36,7%), considera muito pouco e (36,7%) pouco o tempo livre que dispõem para atividades de ócio.

A partir destes dados podemos entender que os sujeitos da pesquisa consideram pouco e muito pouco o tempo objetivo que dispõem para práticas e atividades que consideram de ócio. Conforme vimos o tempo livre é condição para tais práticas e pode também ser condição que facilite uma experiência de ócio, no entanto a existência de tempo livre não garante que a atividade nele realizada seja de ócio. Conforme afirma Rodhen (2009), a dimensão temporal deve ser entendida como uma condição situacional que facilita ou dificulta o ócio, não sendo determinante da qualidade da experiência. Neste sentido, para Cuenca e Gutiérrez (2009), o tempo pode ser um indicador significativo para tal condição, ainda que não nos dê referência de sua qualidade. Ou seja, no entender destes autores, as atividades realizadas no tempo livre podem ser atividades, que para nós são consideradas atividades de lazer, e não necessariamente uma experiência de ócio no sentido descrito por Cuenca (2004).

Cuenca (2003) afirma que o tempo livre, enquanto um fenômeno conquistado ao longo do século passado como conseqüência da evolução da sociedade industrial vem se manifestando na sociedade contemporânea com maior intensidade. No entanto, com base nos dados, essa não parece ser a realidade dos estudantes universitários de Fortaleza- CE. Comparando os dados encontrados com resultados de investigações1 apresentadas por Santamaria (2006), vemos que há algo em comum entre a realidade dos estudantes brasileiros e os dados da realidade européia. Santamaria (2006) mostra que as pessoas que trabalham em atividades remuneradas e os estudantes são os grupos que aparecem com menores disponibilidades de tempo livre, quando comparados com desempregados e aposentados permanecendo as pessoas ocupadas em tarefas de casa em uma posição intermediária.

Neste sentido, entendemos que o enfoque que a sociedade contemporânea dáà produtividade e à eficiência faz com que o tempo livre de jovens universitários seja invadido pela aprendizagem de habilidades para o trabalho. Corroborando com esta visão Alday (2006) reitera que a educação tem contribuído para isto quando reduz a importância de atividades voltadas para Arte, Literatura e Filosofia e prioriza a Ciência e a Técnica. Desta forma, o tempo livre é ocupado com uma atividade com um fim, no caso, a preparação para o trabalho.

Em relação à percepção de gênero, observamos que as mulheres universitárias da cidade de Fortaleza se percebem com menos tempo livre que os homens. Reafirmando os dados encontrados, Santamaria (2006) relata que, na Espanha, sem exceção, as mulheres que exercem uma determinada atividade têm menos tempo de ócio que os homens que realizam a mesma atividade. Afirma ainda que não só em relação aos homens e mulheres em atividade remunerada podem ser encontradas diferenças, as distâncias maiores entre homens e mulheres na realização de atividades de ócio se encontram nas pessoas que estão
desempregadas, os homens têm mais de quatro horas de seu tempo usado em atividades de lazer que as mulheres.

Os dados da realidade dos entrevistados brasileiros parecem confirmar o que pesquisadores espanhóis já vinham observando em pesquisas relacionadas à percepção do tempo livre para atividades de ócio na Espanha.

No quadro a seguir trataremos do grau de importância que o ócio tem na vida das pessoas.

Podemos observar que o ócio representa um espaço muito importante (52,2%) e bastante importante (39,1%) na vida das pessoas entrevistadas. E, em relação ao gênero tal percepção parece ser muito próxima para homens e mulheres.

Tais dados confirmam o que Cuenca (2002, 2004, 2008) e Santamaria (2006) vêm afirmando: a valoração social do ócio está aumentando constantemente. O ócio é um valor em ascensão, que está cada vez mais se desvinculando da noção de compensação ou prêmio em relação ao trabalho, mas está sendo considerado um elemento de bem-estar social e individual, um componente indispensável para possibilitar uma melhor qualidade de vida.

Não dispomos de dados qualitativos que indiquem o sentido que os universitários de Fortaleza atribuem ao ócio, no entanto, pesquisas recentes (Fernandes,2011 e Gurgel,2011). desenvolvidas pelo laboratório Otium, não só na cidade de Fortaleza como também em outras regiões Brasil confirmam que o ócio é um valor considerado em ascensão.

Em pesquisa Européia sobre valores, Santamaria (2006) observa que 38% das pessoas que participaram do estudo consideravam o ócio muito importante na vida em 1995. E que em 1999 esse grupo havia crescido para 48 % das pessoas. Dados significativos que representam uma manifestação do crescimento do valor do ócio na sociedade européia e que podem nos ajudar a compreender a valoração do ócio no Brasil.

Em relação ao grau de satisfação com o seu ócio, os resultados demonstram que a maior parte dos entrevistados (45,7%) está pouco satisfeita com o seu ócio, sendo que destes (56,7%) são de mulheres e (25,0%) de homens.

Podemos fazer uma relação entre o grau de satisfação com o ócio e o tempo que dispõem para a realização de atividades voltadas para o ócio. A maior parte dos entrevistados (45,7%) está pouco satisfeita com o ócio que praticam, assim como a maior parte dos entrevistados considera que têm “muito pouco” (30,4%) e “pouco” (43,5%) de tempo para o ócio; apesar de mais da metade dos entrevistados, (52,2%) considerar que o ócio ocupa um espaço muito importante nas suas vidas. Por este modo de entender, a pouca satisfação com o ócio pode estar relacionada ao pouco tempo livre que as pessoas têm para realizá-lo, o que mostra uma relação de identificação entre ócio e tempo livre por parte dos entrevistados.

Esses dados e as considerações anteriores sobre ócio, tempo livre e lazer nos levam a algumas reflexões: será que uma maior disponibilidade de tempo livre implicaria em mais experiências de ócio e em maior grau de satisfação por parte destes sujeitos, já que afirmam que o ócioé algo muito importante em suas vidas? A que tipo de ócio os sujeitos estão se referindo, uma vez que o ócio enquanto experiência humana é uma experiência que envolve satisfação pessoal, motivação intrínseca e percepção de liberdade?.

A pouca satisfação percebida com o ócio pode indicar também, por outra análise, que as vivências que os sujeitos realizam se constituem em experiências comuns no sentido utilizado por Dewey (1949). São atividades realizadas em seu tempo livre e que, por, não necessariamente partirem de uma motivação intrínseca, e por não terem um fim em si mesma, não geram alto grau de satisfação nas pessoas que a realizam.

Desta forma, para proceder a uma análise mais detalhada da experiência de ócio cabe uma análise sobre práticas relacionadas às atividades de ócio realizadas pelos sujeitos. Para podermos refletir sobre as questões colocadas anteriormente e sobre o grau de satisfação com o ócio, faz-se necessário analisarmos as atividades de ócio relacionadas pelos entrevistados e que aqui estão organizadas em blocos. Cuenca (2003) considera as atividades de ócio como expoente de reflexão e ponto de partida para o tratamento teórico e prático do ócio atual, pois elas dependem da livre eleição pessoal de cada um, mas também das oportunidades para poder realizá-las.

A tabela nos mostra que as principais atividades de ócio realizadas estão associadas a ver televisão e ao computador (73,9%) e que se manifestam de modo semelhante para homens (75,0%) e para mulheres (73,3%) e a festas, celebrações (30,4%) dos entrevistados.É interessante observar também que 4,3% dos entrevistados consideram não realizar nenhuma atividade ócio. Os dados apresentados mostram que o turismo ficou em quinto lugar no grupo das atividades mais realizadas, com apenas 19,6 % de indicação dos entrevistados.

Dentre os blocos de atividades apresentados no quadro, os entrevistados podiam escolher duas atividades de cada bloco que mais realizam. A opção mais citada dentre as atividades mais realizadas foi “ajudar a família”, em segundo lugar “navegar na internet” e em terceiro lugar “escutar música”, todas as opções foram escolhidas por mais de 70% dos entrevistados. Considerando o gênero, mais de 70% das mulheres realizam as seguintes atividades: “ajudar a família”, “escutar música”, “navegar pela internet” e “ver filmes no cinema ou em casa”. Os homens consideraram as atividades mais realizadas “navegar na internet”, “ajudar a família”, “escutar música” e “ver filmes no cinema ou em casa”, nesta ordem.

Em relação ao desejo de realizar alguma prática de ócio que não realiza atualmente, dentre as mais de 40 atividades listadas, quase metade dos entrevistados considerou que existe alguma atividade que não praticam e que gostariam de praticar. Mais da metade das mulheres (51,5%) afirmou que gostaria de praticar alguma atividade de ócio e que não tem a possibilidade de realizá-la. Em relação aos homens, um número menor (33,5%) indica que gostariam de praticar alguma atividade que não praticam.

Em relação às principais atividades que não praticam os entrevistados e que gostariam de praticar não existem grandes diferenças entre os sexos, variando apenas alguma atividade em relação ao grau de importância, mas coincidindo praticamente em todas. Em geral, as atividades que gostariam de realizar são: “esporte”, tanto individual como em equipe, “viajar”, “atividades ao ar livre” como “acampar na serra ou na praia” e praticar algum tipo de “voluntariado”.

Uma exceção foi observada nos entrevistados mulheres que citaram atividades que não aparecem na lista de opções. Em relação aos entrevistados homens, a categoria “cuidar de animais” e “pescar” aparece em terceiro lugar. Podemos observar que, em relação às práticas de ócio realizadas e às práticas que os entrevistados gostariam de realizar, as práticas mais citadas podem ser consideradas lazer, uma vez que se reduzem a atividades específicas limitando o ócio a uma atividade aparente, ou ainda por se identificarem com o tempo livre e “separarem os tempos humanos e sociais”. Para serem consideradas ócio do ponto de vista do ócio autotélico ou do ócio construtivista enquanto fenômeno psicossocial, no entender de Rodhen (2009), algumas características devem estar presentes, são elas: percepção de liberdade, motivação intrínseca, desfrute, desenvolvimento humano pessoal e comunitário, sentimentos de renovação, atenção concentrada na experiência, etc. Para esta autora, o ócio é experiência subjetiva, é uma maneira de estar no mundo e não uma atividade.

Contrastando os dados encontrados com a literatura observada, podemos inferir que Cuenca (2003) cita que, ao final do século XX, as atividades de ócio por excelência são o turismo e a televisão. A televisão é o grande turismo na quietude de um lugar enquanto o turismo é a televisão em movimento e uma proliferação do consumo ocular. Dados da década de 1990 de pesquisas na população espanhola indicam que 90 % da população vê televisão quase todos os dias. Cabe ressaltar, mais uma vez que este autor trata de atividades de ócio que podem ser entendidas por uma concepção objetiva, que para nós, neste caso, se assemelham a práticas de lazer e por uma concepção subjetiva que envolve o ócio autotélico, já citado anteriormente. As transformações tecnológicas dos últimos anos têm permitido o desfrute massivo de aparelhos de televisão, tornando possível a internacionalização de diferentes sistemas de comunicação que tiveram como conseqüência, numa primeira fase, a mudança de hábitos pessoais e familiares como a redução de práticas culturais que eram significativas na classe média como ir ao cinema ou ao teatro e ler livros (Cuenca, 2003). Ver televisão proporciona distração e evasão ao mesmo tempo, que são segundo Rodhen (2009) dois dos onze atributos ou qualidades do ócio, o que nos leva a crer que em atividades de lazer podemos ter a possibilidade de experiências de ócio.

Sobre o uso do computador como uma das atividades mais realizadas junto a ver televisão, corroboramos com Gutiérrez (2008) que analisa a chegada e a difusão das tecnologias digitais como um fator que propiciou o aparecimento de atividades de ócio não existentes até o momento. Entre elas, os jogos virtuais arrebatam cada vez mais praticantes e causam impacto econômico na sua indústria. “Podemos afirmar que os jogos virtuais se configuram na atualidade como a atividade lúdica de maior importância em relação às novas tecnologias de informação e comunicação (p. 271).

Sobre as novas tecnologias e o seu uso indiscriminado na atualidade, Juniu (2008) afirma que as novas tecnologias têm permitido ao indivíduo estar conectado com o mundo inteiro, mas ao mesmo tempo estes indivíduos estão se transformando em “apêndices” de seus computadores; esses aparelhos eletrônicos podem significar uma ameaça para a qualidade de vida em uma cultura que está sempre “conectada”, o que afeta a experiência de tempo e de ócio.

Dado importantíssimo a ser ressaltado é o fato de 4,3 % dos entrevistados considerarem não realizar nenhuma atividade de ócio. O ócio ausente como aponta Cuenca (2003) pode ser entendido como a carência de ócio ou como uma vivência na qual o sujeito percebe como um mal o tempo vazio, sem obrigações. Este dado nos leva a crer que é extremamente necessário preparar os sujeitos, formá-los no sentido de uma educação para o ócio enquanto um processo voltado para a melhora da pessoa na relação com suas vivências de ócio. Conforme assevera Cuenca (2003), muitas das atividades culturais relacionadas com ócio não se realizam somente por falta de motivação, mas porque se requer um mínimo de preparação inicial para desfrutá-las.

Em relação às principais dificuldades para realizar atividades que os entrevistados desejariam praticar, mas não as colocam em prática, a maior parte dos entrevistados, 82,6%, atribuiuà falta de tempo e 43,5 %, atribuíram à necessidade de dinheiro para tal. Estes dados mostram que a compreensão da experiência de ócio do jovem universitário da cidade de Fortaleza ainda está muito voltada para o entendimento da vivência de ócio relacionada a tempo livre, sendo este considerado uma condição necessária para a vivência do ócio, mas não definidora da qualidade da experiência.

Outro fator que também deve ser considerado é a relação entre ócio e consumo uma vez que os entrevistados consideram o segundo maior impedimento para a realização de atividades de ócio a limitação financeira. Sobre este fato Cuenca (2003) explica que se as pesquisas apontam que nossos adultos jovens não sentem interesse por desfrutar de determinadas atividades de ócio cultural e que não há que se buscar a explicação para este fato em fatores econômicos, mas no desconhecimento e na conseqüente impossibilidade de se desejar algo que não se percebe na sua justa medida. Afirma ainda que a relação adequada entre ócio e consumo requer uma base cultural suficiente através da qual só se pode chegar através da formação. Considerações finais Podemos concluir que, em relação à realidade observada com este grupo de universitários da cidade de Fortaleza, o ócio representa um valor em ascensão, sendo representado como muito importante na vida das pessoas, no entanto, estas mesmas consideram que o tempo de ócio que dispõem é muito pouco, o que talvez explique o baixo nível de satisfação apresentado com o ócio que têm e nos leve a questionar a que tipo de ócio os sujeitos se referem. A maior parte das práticas citadas como de ócio, como ver televisão e usar o computador, assim como as atividades que os entrevistados gostariam de realizar e não realizam podem ser entendidas como atividades de lazer. Além disto, percebemos que o tempo é apontado como um dos fatores que mais dificulta a realização de atividades de ócio seguido da condição financeira, o que nos leva a pensar que a compreensão do ócio dos entrevistados está estreitamente relacionada à disponibilidade de tempo livre e a práticas de lazer voltadas ao consumo.

Tais dados refletem a realidade vivida pelos entrevistados e o contexto da sociedade contemporânea no qual estão imersos, da lógica do hiperconsumo, permeada pela cultura do mais rápido e do sempre mais e, junto com ela, uma aceleração nos modos de vida. Vivemos numa lógica paradoxal, embora na contemporaneidade tenhamos ganhado mais tempo livre, somos cada vez mais exigidos a fazer mais no menor tempo possível, a agir sem demora; a mostrar resultados à curto prazo.

As atividades citadas pelos entrevistados, compreendidas à luz dos referenciais citados anteriormente, podem ser entendidas como práticas de lazer e nos levam a conhecer a concepção objetiva de ócio citada por Cuenca (2003), pois aproximam o estudo do ócio ao tempo livre e à atividade e nos possibilita uma descrição dos tempos empregados para o ócio, nos levando a uma análise dos comportamentos de ócio da população e nos possibilitando perfilar os hábitos de ócio de uma coletividade ou de uma sociedade.

Sabemos que o fenômeno do ócio pode ser compreendido por diferentes abordagens e teorias e dá margem a um estudo interdisciplinar. Esta análise, apresentada no presente estudo, apresenta de maneira isolada uma compreensão do fenômeno, pois os dados quantitativos nos permitiram a contextualização apenas de algumas das manifestações mais explícitas de práticas de lazer, não nos possibilitando dar conta da complexa interação de fluxos internos, subjetivos que sustentam as emoções, cognições, motivações, atitudes e valores que precedem e desencadeiam as condutas de ócio assim como dos processos vivenciais que as acompanham. Para isto, precisaríamos nos aprofundar na pesquisa, no conhecimento daatitude pessoal de cada sujeito participante, o que não era o objetivo no momento, mas poderá ser objeto de outras investigações.

Embora empiricamente se considere o lazer como o espaço privilegiado do ócio, na realidade o lazer é mais um conjunto de atividades realizadas num tempo de não-trabalho, que facilita, mas não garante a experiência de ócio. Mesmo que os resultados pareçam insuficientes em relação à compreensão humanista e subjetiva da experiência de ócio ou a concepção de ócio construtivo, o estudo mostra-se relevante à medida que aponta direcionamentos sobre a compreensão das práticas de lazer realizadas por estudantes universitários na cidade de Fortaleza e nos possibilita conhecer o que Cuenca (2003) chama de concepção objetiva de ócio e nos fornece pistas para futuras investigações.

Entendemos que o tempo, enquanto tempo social, é objetivo e mensurável e pode ser quantificado; o ócio, enquanto vivência especificamente humana deve conectar-se, necessariamente, com a nossa vertente pessoal e subjetiva, vivências difíceis de quantificar.. Em uma prática de ócio, ou numa atividade de lazer, é fácil determinar o tempo que se emprega objetivamente na atividade, como viajar, ler um livro, ver televisão, jogar uma partida de futebol, mas é difícil fazê-lo enquanto experiência completa, que envolve o tempo em que estamos projetando, desejando realizar tal atividade, o tempo em que a vivemos e o tempo em que estamos desfrutando, recordando tais momentos. A experiência de ócio permite buscar um equilíbrio entre o tempo objetivo, livre e o tempo subjetivo.

Os dados que apontam as práticas mais realizadas pelos entrevistados no seu tempo livre demonstram que o problema que nos coloca na atualidade é como fazer para não converter uma experiência de ócio em produto de consumo, ou em experiências comuns, uma vez que, a maior parte das pessoas, nas sociedades tecnológicas, ocupa seu tempo livre com entretenimento e, na medida em que o ócio se converte em produto de consumo, seus vínculos com a criatividade tendem a uma limitação.

Sabemos que o ócio se apresenta para nós com um infinito leque de possibilidades, como fonte de benefícios importantes para o desenvolvimento pessoal e social e para a melhora da qualidade de vida. Partindo do que foi exposto sobre a compreensão que os jovens universitários têm do ócio na cidade de Fortaleza podemos afirmar que se faz necessário um planejamento de educação para o ócio nas instituições educativas com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento, a melhora e a satisfação vital das pessoas e das comunidades através de conhecimentos, de atitudes, de valores e de habilidades relacionadas com o ócio enquanto experiência humana subjetiva.

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José Clerton de Oliveira Martins
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Francisco Antonio Francileudo